Guia de Simulação Clínica para Implementação de Cirurgias Robóticas
Autoras
“Material educativo direcionado a profissionais de saúde envolvidos na assistência perioperatória em cirurgia robótica”. Produto do Mestrado Profissional em Enfermagem da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA).
FICHA TÉCNICA
DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP)
Guia de simulação clínica para implementação de cirurgias robóticas
Carolina Borba Rizzi, Rita Catalina Aquino Caregnato, Lisie Alende Prates.
Porto Alegre: UFCSPA, 2026. Formato digital.
Produto técnico vinculado à dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (Mestrado Profissional), Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre
1. Capacitação por Simulação. 2. Procedimentos cirúrgicos robóticos. 3. Enfermagem perioperatória. 4. Educação em enfermagem. 5. Segurança do paciente. I. Rizzi, Carolina Borba. II. Caregnato, Rita Catalina Aquino. III. Prates, Lisie Alende. IV.Título.
PRODUÇÃO EDITORIAL
Projeto Gráfico e Diagramação: Carolina Borba Rizzi, Matheus Kraus Cannas.
Desenvolvimento Web e Programação (HTML): Matheus Kraus Cannas.
Revisão Textual: Vinícius Festa Rigo.
DECLARAÇÃO DE USO DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL (IA)
Uso das ferramentas de IA Gemini Pro e Claude para geração e apoio a recursos visuais.
As autoras assumem total responsabilidade pelo conteúdo da publicação.
DIREITOS AUTORAIS E TERMOS DE USO
Todos os direitos reservados às autoras.
Este material técnico-instrucional é produto educacional vinculado ao Mestrado Profissional do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). É permitida a reprodução parcial ou total desta obra exclusivamente para fins didáticos, acadêmicos, assistenciais e não comerciais, desde que citada explicitamente a fonte, com a autoria e a vinculação institucional.
Sumário
Autoras
Carolina Borba Rizzi
Enfermeira. Especialista em Centro Cirúrgico, Recuperação Pós-anestésica e Central de Materiais e Esterilização. Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). Especialista Clínica Plataforma Robótica Toumai na empresa MicroPort.
Lisie Alende Prates
Enfermeira. Especialista em Enfermagem em Cuidado Pré-Natal e em Enfermagem Obstétrica; e em Equidade na Gestão do Trabalho e da Educação no Sistema Único de Saúde. Mestre em Enfermagem. Doutora em Enfermagem. Professora Adjunta da Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA), campus Uruguaiana. Docente externa permanente no Programa de pós-graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA).
Rita Catalina Aquino Caregnato
Enfermeira. Especialista em Saúde Pública, Administração Hospitalar e Metodologia do Ensino Superior. Mestre em Enfermagem. Doutora em Educação. Professora Associada IV do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). Professora permanente dos Programas de Mestrado Profissional “Ensino na Saúde” e “Enfermagem” da UFCSPA.
Apresentação
Este guia é direcionado aos profissionais da saúde (enfermeiros, médicos e técnicos de enfermagem) que atuam na assistência perioperatória em cirurgia robótica. Seu objetivo é oferecer subsídios para a realização de simulação clínica na implementação de cirurgias robóticas.
Nele, apresentamos um roteiro estruturado com os pontos críticos a serem verificados e simulados antes do início das cirurgias robóticas, com o propósito de contribuir para que a equipe esteja preparada a realizar o procedimento cirúrgico robótico com segurança e eficiência.
Este documento serve como um guia norteador. É imprescindível que o Roteiro de Simulação Clínica para Implementação de Cirurgia Robótica aqui apresentado seja adaptado e complementado, conforme as especificidades da plataforma utilizada (robôs para tecidos moles ou ortopédicos), as necessidades da equipe multidisciplinar e os protocolos operacionais de cada instituição.
Este material educativo é um produto do Mestrado Profissional em Enfermagem do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA).
Entendendo o contexto da assistência em cirurgia robótica
Cirurgia robótica
A incorporação de novas tecnologias na assistência à saúde é constante. Nesse cenário de inovações, a cirurgia robótica tem se consolidado como uma das principais expressões do avanço tecnológico.
A cirurgia robótica é uma abordagem cirúrgica minimamente invasiva, que utiliza sistemas robóticos avançados para apoiar o cirurgião durante os procedimentos, oferecendo níveis superiores de precisão, controle e destreza.1
A plataforma robótica ou sistema robótico é o conjunto integrado de dispositivos e tecnologias desenvolvidos para auxiliar na realização de procedimentos cirúrgicos com maior precisão. Esses conjuntos são compostos por braços robóticos articulados, câmeras de alta definição, joysticks (controles de comando dos instrumentais cirúrgicos) e instrumentos cirúrgicos delicados e de alto desempenho, controlados de forma remota por um cirurgião a partir de um console. Esses equipamentos atuam como extensões remotas coordenadas pelo cirurgião e, portanto, são descritos como manipuladores mestre-escravo.2-4 Diversas plataformas robóticas foram desenvolvidas no mundo, e algumas já estão implementadas e em operação no Brasil, permitindo a realização de procedimentos em diferentes especialidades médicas.2-4
Diante da crescente complexidade dos recursos tecnológicos disponíveis, é imprescindível a capacitação contínua da equipe multiprofissional que atua nesse cenário, com o objetivo de garantir uma assistência segura, qualificada e adaptada às novas demandas.5
O papel da equipe assistencial
A assistência perioperatória da cirurgia robótica é uma atividade complexa, pois, além das atribuições tradicionais referentes à cirurgia, os profissionais desempenham atribuições específicas, distintas das de outras especialidades cirúrgicas.6-7 Entre elas, está a montagem da sala cirúrgica, que deve seguir o tipo de procedimento e o layout exigido, contemplando os componentes da plataforma robótica. O domínio do sistema robótico também é imprescindível para a realização adequada do cabeamento e da configuração do equipamento, garantindo seu funcionamento seguro.
O posicionamento cirúrgico do paciente exige uma abordagem individualizada, considerando não apenas a exposição adequada do campo operatório e a anatomia do paciente, mas também a possibilidade de colisão do equipamento com seu corpo. Além disso, há a necessidade de gerenciar os insumos específicos da cirurgia robótica, padronizar as rotinas operacionais e promover continuamente a capacitação da equipe envolvida.6-9
A segurança do paciente é uma preocupação constante para a equipe interdisciplinar, impondo desafios aos serviços de saúde, independentemente do nível de atuação. Dessa forma, esse tema é foco frequente de discussões e ações de educação em saúde.10-12 Tendo em vista a constante demanda de capacitações e atualizações, as instituições de saúde e de educação vêm desenvolvendo estratégias de ensino-aprendizagem a fim de oferecer uma assistência mais segura. No complexo contexto do Centro Cirúrgico (CC), uma das estratégias que vêm sendo utilizadas é a simulação clínica.13-14
Pontos de atenção na assistência em cirurgia robótica
- Layout da sala cirúrgica adequado e funcional para o procedimento;
- Conexão e verificação do sistema robótico;
- Teste da funcionalidade de todos os aparelhos da sala cirúrgica;
- Previsão de materiais, instrumentais, equipamentos e OPME;
- Draping;
- Posicionamento cirúrgico;
- Docking/undocking;
- Verificação das posições reais de trabalho;
- Previsão de materiais e instrumentais para conversão de urgência;
- Manejo do travamento de pinças robóticas;
- Atendimento de intercorrências clínicas.
Referências
A simulação clínica
A simulação clínica é uma estratégia ativa de ensino e aprendizagem que utiliza cenários para reproduzir o ambiente de trabalho, a fim de simular situações do cotidiano e, dessa forma, propiciar espaços educativos e seguros de prática e de reflexão sobre os processos, além de identificar oportunidades de melhoria.1-2 A simulação clínica pode ser classificada quanto ao seu nível de fidelidade (baixa, média ou alta), conforme o grau em que a experiência simulada se aproxima da realidade.
A simulação proposta neste guia é de alta fidelidade, realizada in situ. Esse tipo de simulação estimula o desenvolvimento do raciocínio clínico e da tomada de decisão, permite treinar o participante para cenários complexos e para o trabalho em equipe e facilita o aprendizado quando utilizado nas condições adequadas.3 O desenvolvimento de habilidades permite que os profissionais adquiram competência e segurança na prática do cuidado, proporcionando um ambiente seguro e de qualidade aos pacientes cirúrgicos.4-5
Além do seu uso para capacitação da equipe em situações de desfecho conhecido, a simulação de alta fidelidade também pode ser utilizada para testar mudanças de ambientes e fluxos de trabalho, permitindo identificar lacunas nos processos e, assim, propor melhorias.3
A International Nursing Association for Clinical Simulation and Learning (INACSL)6, associação internacional dedicada ao avanço da ciência da simulação na área da saúde, recomenda que o desenvolvimento da simulação clínica em saúde contemple as seguintes etapas:
Design da simulação
Processo de planejamento da simulação em que são definidos, de forma clara, os objetivos de aprendizagem, dentro da proposta de simulação in situ. Deve-se elaborar a descrição do cenário e estruturar o roteiro teórico-prático, que contextualiza e direciona os participantes, a fim de facilitar o desenvolvimento da simulação. Também é preciso planejar os materiais e equipamentos necessários à prática da simulação.
Briefing
Visa esclarecer as regras da simulação, apresentar seus objetivos, orientar os participantes sobre o ambiente e os recursos disponíveis e estabelecer o contrato de ficção, ou seja, convidá-los a agir como se estivessem em um ambiente real. Nesse momento, é fundamental deixar claro que a simulação clínica é um espaço de aprendizado sem julgamentos, a fim de garantir a segurança psicológica dos participantes. Para contemplar esta etapa, deve ser elaborada uma apresentação da simulação que esclareça seus objetivos, as orientações sobre o cenário e os recursos disponíveis, assim como as atividades a serem realizadas.
Debriefing
Visa consolidar o aprendizado por meio da reflexão crítica sobre a experiência vivenciada. Devem ser realizadas a revisão das ações executadas pelos participantes; a exploração do raciocínio clínico, a fim de entender o porquê de cada ação; a discussão dos pontos fortes e dos pontos a melhorar; e, por fim, a relação entre a prática simulada e a realidade clínica.
Apresentamos, a seguir, o Roteiro de Simulação Clínica para Implementação de Cirurgia Robótica, desenvolvido pelas autoras. O roteiro serve para estruturar, de forma efetiva e segura, o fluxo de trabalho das primeiras cirurgias robóticas de uma instituição. Para utilizá-lo de forma eficaz, recomendamos que a equipe leia cada item em dois momentos: antes da simulação, a fim de identificar e preparar todos os materiais e equipamentos necessários para a cirurgia; e durante cada simulação, para revisar criteriosamente todos os pontos de atenção para o desenvolvimento da cirurgia.
Referências
Roteiro de Simulação Clínica para Implementação de Cirurgia Robótica
Referências
Exemplo de layout de sala cirúrgica robótica
A imagem a seguir ilustra um exemplo de layout de sala cirúrgica robótica, contemplando o posicionamento estratégico dos equipamentos, as áreas de circulação da equipe e a organização do espaço perioperatório.
Fonte: as autoras.
Quer saber mais sobre cirurgia robótica e simulação clínica?
Livro — Boas práticas em cirurgia robótica (SOBECC)
SOBECC. Boas práticas em cirurgia robótica. São Paulo: SOBECC; 2023.
Livro — Cirurgia Robótica: Princípios e Fundamentos
Guimarães G, Parekh DJ, Távora JE, Nahar B, Junger G. Cirurgia Robótica: Princípios e Fundamentos. 1ª ed. Belo Horizonte: Editora Ciências Médicas; 2022.
Livro — Diretrizes de Práticas em Enfermagem Perioperatória e Processamento de Produtos para Saúde
SOBECC. Diretrizes de Práticas em Enfermagem Perioperatória e Processamento de Produtos para Saúde. 8ª ed. São Paulo: SOBECC; 2021.
Capítulo de livro — Implementação e desenvolvimento de um programa de cirurgia robótica
Jünger GM, Távora JEF. Implementation and development of a robotic surgery program. In: Bezerra da Silva Junior G, Nangaku M, editors. Innovations in Nephrology. Cham: Springer; 2022. doi10.1007/978-3-031-11570-7_24.
Capítulo de livro — Cuidados de enfermagem perioperatórios e posicionamento do paciente em cirurgia robótica
Jünger GM, Moraes CM, Tolentino LG. Perioperative nursing care and patient positioning in robotic surgery. In: Handbook of Robotic Surgery. Amsterdam: Elsevier; 2025. p. 249-258. doi:10.1016/B978-0-443-13271-1.00050-9.
Manual de simulação clínica para profissionais de enfermagem
Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (BR). Manual de simulação clínica para profissionais de enfermagem [Internet]. São Paulo: Coren-SP; 2020 [acesso em 2025 jan 20]. 142 p. Disponível em: https://biblioteca.cofen.gov.br/wp-content/uploads/2022/01/manual-simulacao-clinica-profissionais-enfermagem.pdf
International Nursing Association for Clinical Simulation and Learning (INACSL)
INACSL. About INACSL [Internet]. Durham, NC: INACSL; 2024 [cited 2025 Jun 7]. Available from: https://www.inacsl.org/
Artigo — O treinamento no protocolo para desacoplamento robótico para suporte de emergência de vida (RULES) melhora a comunicação e a coordenação da equipe e reduz o tempo necessário para desacoplar o sistema robótico do paciente
Almeida TFP, Campos MEC, Castro PR, Garcia DPC, Junger G, Silva RFE, et al. Training in the protocol for robotic undocking for life emergency support (RULES) improves team communication, coordination and reduces the time required to decouple the robotic system from the patient. Int J Med Robot. 2022;18(6):e2454. doi: 10.1002/rcs.2454. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35998074/
Editorial — Checklist de atribuições da equipe de enfermagem em cirurgias robóticas
Bergonzini F, Almeida E, Carvalho R de. Checklist de atribuições da equipe de enfermagem em cirurgias robóticas. Rev SOBECC [Internet]. 2024 mar. 5 [citado 2026 jul. 23];29. Disponível em: https://revista.sobecc.org.br/sobecc/article/view/933
Considerações finais
A implementação de um programa de cirurgia robótica transcende a aquisição de tecnologia de ponta; ela exige, acima de tudo, a melhoria e o fortalecimento da cultura de segurança. Este guia foi elaborado como um primeiro passo nesse processo, oferecendo um alicerce para que a equipe multidisciplinar possa treinar, falhar em ambiente seguro e corrigir processos antes que eles alcancem o paciente. Ao utilizar este guia de simulação, a equipe não está apenas testando equipamentos, mas também validando fluxos críticos de comunicação e segurança.
Embora este guia aborde os aspectos fundamentais do layout, do intraoperatório e da gestão de crises, é fundamental reconhecer que cada cenário cirúrgico tem suas próprias variáveis. Este material serve, portanto, como um ponto de partida sólido para encurtar a curva de aprendizado e padronizar condutas.
Encorajamos a atualização dos profissionais por meio da educação continuada, da leitura crítica de novas diretrizes e da realização periódica de capacitações. A segurança do paciente depende da nossa capacidade de antecipar problemas e da nossa prontidão para agir. Estar preparado é a melhor forma de transformar a tecnologia em saúde.
Glossário
- Briefing
- Reunião rápida realizada antes da simulação ou cirurgia para alinhar objetivos, regras e papéis da equipe.
- Chave de Segurança
- Ferramenta específica utilizada para abrir manualmente as pinças robóticas em caso de travamento.
- Console do Cirurgião
- Unidade de comando onde o cirurgião se posiciona para visualizar o campo operatório e controlar os braços robóticos.
- Debriefing
- Momento de reflexão crítica realizado após a simulação para discutir o que funcionou e o que pode ser melhorado, consolidando o aprendizado.
- Docking (Acoplamento)
- Processo de conexão dos braços da plataforma robótica aos trocartes (portais) já inseridos no paciente.
- Draping
- Processo de colocação de campos estéreis específicos (capas) nos braços e na câmera do robô para garantir a técnica asséptica.
- In situ
- Expressão latina que significa “no local”. Refere-se à simulação realizada no ambiente real de trabalho (a própria sala cirúrgica).
- Layout da Sala
- Disposição estratégica e funcional dos equipamentos (robô, torre de visão, estativas) para otimizar o espaço e a circulação da equipe.
- Manipulador Mestre-Escravo
- Sistema em que as pinças robóticas replicam, em tempo real e com maior precisão, os movimentos realizados pelo cirurgião nos joysticks do console.
- OPME
- Sigla para Órteses, Próteses e Materiais Especiais.
- Plataforma Robótica
- Conjunto integrado dos componentes (equipamentos) de cada sistema robótico.
- Simulação de Alta Fidelidade
- Estratégia que utiliza cenários e equipamentos que se aproximam ao máximo da realidade clínica para treinar tomada de decisão e trabalho em equipe.
- Undocking (Desacoplamento)
- Processo de desconexão dos braços robóticos dos trocartes que estão no paciente.